domingo, agosto 27, 2006

Contornando a Serra

Mal me fiz à estrada, começou a chover torrencialmente. Parecia que estava à espera que eu arrumasse tudo para acontecer.
Primeira paragem do dia: Castelo Novo, a aldeia histórica mais bem localizada do país, a 3km da A23.
Deixei o carro até pé do posto de turismo, onde arranjei mais um guia e lá fui eu por aquelas ruas desta simpática aldeia, cumprimentando sempre quem passava.
Muitas casas de família, e do castelo mandado construir no reinado de D. Sancho I, só resta a Torre de Menagem que vigia toda a aldeia, e algumas parte das muralhas. No Largo Petrus Guterri, e escavada na rocha está uma Lagariça, de provável construção entre os séculos VII/VIII. De destacar o antigo hotel, edifício todo feito de pedra de 3 pisos com um grande varandim e águas furtadas.
Despeço-me se Castelo Novo sempre antes deixar de encher a garrafa no Chafariz da Bica, momento barroco com a pedra de armas de D. João V.
Aproveitando as boas estadas que existem agora na região, fui em direcção a Sortelha (foto) mais uma aldeia histórica, com vista para a Serra da Estrela. Das muralhas, também se consegue ver a Covilhã.
Por entre a vegetação, percorro uma estrada deserta sempre a subir. Acabo por chegar a uma povoação que não parece o que o folheto mostra. Sigo a indicação de castelo que me dá duas hipóteses. Opto pela direita e acabado por sair da povoação, sigo por uma estrada empedrada que me leva a um pequeno planalto descampado. O castelo aproxima-se. Deixo o carro numa das entradas e ao passar a porta deparo com um conjunto de casas em pedra escondida dentro das muralhas. Encontro o posto de turismo onde uma fria senhora de poucas palavras me fez sair dali para foram antes que alguma coisa má acontecesse, mas antes sem agarrar o guia da vila.
A visita começa nas Portas da Vila (foto), onde existe um Passo da Via-sacra. A partir daqui, somos envolvidos no ambiente urbano medieval. O percurso sobre ela Rua da Fonte até ao Largo do Pelourinho, passando por várias casas do séc. XVI. Ainda nesta rua e ao lado de uma casa com um janela manuelina, uma outra ainda mais antiga do séc. XV.
No Largo do Pelourinho (foto), existe como o nome indica um pelourinho datado do séc. XVI, a entrada para o Castelo, um passo da Via-sacra.
Continuando em direcção à Porta Nova, decido fazer o percurso por cima da muralha. Daqui de cima consigo ver toda a vila que as muralhas escondem, e o que existe do lado de foram. Dentro da muralha a Igreja Matriz ou de N. Senhora das Neves, com mais um Passo da Via-sacra. Passando a Porta Nova, chega-se à Torre do Facho e à Porta falsa de onde se tem uma vista a sobre a encosta este da Serra da Estrela e Covilhã, e uma a grande chuvada que estava para vir. Do lado de dentro a Torre Sineira (foto), e a Casa Árabe cuja denominação se deve ao facto de até há pouco tempo, se desconhecer o significado da inscrições epigráficas da ombreira da sua porta, que se atribui da ocupação árabe (séc. VIII). Hoje sabe-se que a inscrição é medieval e que significa “Jesus Ave Maria”.
Saído pela Porta Nova em direcção ao carro, o céu começou a ficar cada vez mais carregado. Últimos momentos para apreciar a vista ao pé de uma cruz de pedra e correr em direcção ao carro, porque os pingos de chuva começavam a ficar cada vez mais grossos. Último registo de Sortelha, o troço da Calçada Medieval, que percorri para chegar às muralhas. Se com todos os sistemas de amortecimento que temos agora nos automóveis, o percurso parece terrivelmente mau, o que seria no tempo das carroças…
Continuo para norte, tendo como objectivo Linhares da Beira, aldeia histórica e conhecida ultimamente pelos lançamentos de parapente. Preferi contornar a Serra da Estrela por norte do que atravessa-la. Com a A23 e a A25 tudo se torna mais simples e rápido. Uma pequena paragem em Celorico da Beira para levantar dinheiro. Utilizando a N17 comecei dirigi-me para sul a partir de Celorico.

Tinha pensado em ficar num suposto parque de campismo em Linhares, mas quando cheguei fiquei a saber que só funciona quando há parapente. Rumei a Gouveia onde fiquei no parque de campismo perto da cidade. Foi a noite onde tive mais frio, pois o ar gelado da serra descia as encostas e arrefecia tudo o que encontrava pelo caminho. A temperatura deve ter descido aos 8ºC, e eu com equipamento de campismo de Verão.

Fim do 5º Dia

sábado, agosto 26, 2006

Portugal Perdido

Se ontem foi o dia em que fui mais guiado, hoje foi o dia que fui mais massacrado. Tudo começou quando cheguei a Segura. Pus o carro junto do Posto de Turismo, antigo Posto da Guarda-fiscal, que fica a 600m da fronteira. Nesta parte de Portugal, o Rio Erges delimita a fronteira (foto), sendo atravessado por uma velha ponte.

Utilizo um folheto de caminhada para fazer a chamada Rota das Minas. Desde 1857, e durante mais de um século, Segura foi um couto mineiro de importância regional, tendo-se explorado volfrâmio, estanho, chumbo, argentífero, barite, zinco, ouro e fosfatos. Por isso este percurso passa por várias minas e complexos de lavagens de minério. Penso que se bicicleta será mais interessante e rápido fazer o percurso e lá vou eu.

Mal começa, o percurso sobe por uma calçada em direcção a Segura. Depois de passar um Arco das Portas de Baixo, chega-se ao Largo da Praça com um pelourinho (foto). Ao sair da vila passo por um complexo de lavagem de minério de barite. Existe ainda uma passagem por uma antiga mina de estanho e volfrâmio. Depois de mais umas esquerdas e direitas, toma-se uma quelha (caminho estreito entre muros) (foto) que leva ao Rio Erges.
Esta é a parte mais radical do percurso porque o caminho entre muros está completamente coberto de ervas secas e existem pedras por baixo. Quando a caminho acaba, uma pequena pausa para tirar as palhas que apanharam boleia na bicicleta. Uns metros mais abaixo, antigos moinhos de água dão o toque final ao rio, que está seco (foto). Daqui até à ponte velha, o relevo altera-se totalmente. Um desfiladeiro que por vezes atinge os 100m de profundidade torna a progressão mais difícil, de quem quer descer o rio.
Próximo destino, Penha Garcia. Prometia ser mais uma terra numa encosta, com um conjunto de moinhos de água ao longo do Rio Pônsul e mais uns fósseis pelo meio.
Foi a grande surpresa do dia, pelo enquadramento de tudo e a perfeita envolvência com a paisagem.
Estacionei no Largo Chão da Igreja, onde existe jardim com miradouro sobre a planície, uma boa via sobre Monsanto, e onde está estacionado bem lá no meio, a apontar para Monsanto, um
tanque de guerra (!).
Seguindo as marcas de caminhada espalhadas pela vila, foi ter à Igreja Matriz, um dos pontos mais altos, depois do castelo. A partir daqui, a parte mais interessante desta vila é revelada a quem está de visita. No largo da igreja, à nossa esquerda o castelo e em frente, separado de nós por um varandim, um vale profundo, como que se tivesse sido escavado no monte, sem cerimónias, expondo todas as camadas de rocha que existem no seu interior. Lá em baixo moinhos de água recuperados, feitos de pedra de região dão com os seus telhados cor de tijolo, o toque final para aquela maravilha da natureza. Como um tesouro bem escondido do outro lado da encosta. Uns metros mais acima no Rio Pônsul, a Barragem de Penha Garcia, estrutura que se enquadra brilhantemente na paisagem, como uma guardiã do vale, uma comparação entre o desenvolvimento e o antigo.Da igreja segue-se em direcção ao castelo onde a vista ainda melhora mais. Volta-se às ruas de Penha Garcia para logo voltar a sair por entre outras ruas em direcção ao vale.
A cada passo que dou, fico sem perceber porque nasci longe das montanhas ou de sítios como este. Claro que não me posso queixar, porque tenho Sintra, mas é só Sintra… Descendo aos ziguezagues, com cada vez os moinhos (foto) a ficarem mais perto, mas não valia fazer batota, tinha de passar pelo paredão da barragem para atravessar para o outro lado do Rio Pônsul.
Pequenas casas feitas de granito para onde a água era canalizada, davam a imagem e o som ao local. De vez em quando rochas com fósseis (foto), animais marinhos chamados Trilobites que vivam à 250 milhões de anos deram origem a fosseis designados icnofósseis. A população local chama-lhes “cobras pintadas”.
Depois de último moinho e aproveitando o local, fez-se uma piscina artificial caindo sobre ela uma queda de água, local chamado de Fonte do Pego. Quando o tempo está mais quente um banho ali não podia vir em melhor altura.
Enquanto pensava que tudo tinha acabado, uma segunda dose com passagem obrigatória por dentro de uma casa e mais uns “bons dias” as gentes locais.
De volta à vila, perco-me como sempre pelas ruas que pararam no tempo. Vou sempre espreitando os cantos à procura de algo que fique bem na foto, ou por outras palavras, que fique melhor, pois o cenário é simplesmente excelente. Lá em baixo, por vezes parece que estou no Portugal dos Pequeninos… outros tempos, outros tamanhos.
Monsanto
. Já tinha visitado uma vez, tendo sido a porta de entrada nesta região. Foi o ano passado que fiz uma visita relâmpago a estes lados, onde visitei também Idanha-a-Velha, passando pela Barragem de Idanha-a-Nova que me deu ideia de ficar lá a dormir, por ser um local muito agradável.
Monsanto é considerado a aldeia mais portuguesa de Portugal, e apesar do seu ambiente não estar muito longe de outras que visitei, é justíssimo o título que lhe deram. Desde a parte mais baixa até ao castelo, existe sempre alguma coisa para descobrir. Quer seja vasos pendurados na parede, um chafariz com água fresca, a entrada de uma casa, a maneira como pintam as ombreiras das portas e janelas, que sobressaem em relação pedra cinzenta, uma sombra numa rua estreita, um alpendre… até as poucas casas que estão a cair, despertam curiosidade de saber o que está por detrás daquela porta de metro e meio.
Qualquer sítio da rua sem casa tem um vista difícil de descrever.
Ponto mais alto da vila fica o castelo, vigiando tudo em seu redor num raio de muitos quilómetros. A vila está lá em baixo, a mesma quase desde sempre. Deste ponto avistava-se quase todo o mundo se este fosse plano. Lá ao fundo a barragem de Idanha-a-Nova (foto), algures por detrás dos montes Idanha-a-Velha, Serra de Estrela, Penha Garcia, Penamacor e mais umas quantas terras que não sei o nome.
Uma última nota sobre o castelo, parece que não foi feito pelo homem, tal é o seu perfeito enquadramento com a natureza. Foi construído aproveitando grandes pedras já existentes, das quais nascem paredes que as ligam a outras pedras, formando um espaço fechado onde estão a Igreja de Santa Maria do Castelo, Torre de Menagem e a Casa do Governador.
Despedi-me de Monsanto com um “até para o ano”. O futuro o dirá.
Por ficar em caminho e por ainda ter tempo, mais um visita a Idanha-a-Velha. Terra bem arranjada e que se visita muito bem por ser praticamente plana. Rodeada de três lados pelo Rio Pônsul, possui uma ponte romana de quatro arcos, um deles em ogiva (!), e as chamadas poldras, como passagem sobre o rio. As poldras não são mais do que pedras alinhadas na perpendicular à margem, que dá para ir saltando até atingir o outro lado.
A imponente muralha em tempos protegeu as meias dúzia de ruas da vila. Este é o cartão de visita de Idanha-a-Velha.
Fim do 4º Dia

terça-feira, agosto 22, 2006

Rumando a Este

O dia acordou cinzento e com chuva. Chuva em Agosto? Não trosse nenhum impermeável ou guarda chuva…
Como combinado fomos dar mais uma volta para conhecer mais pouco dos segredos na zona de Mação.

Em direcção ao Pego da Rainha (foto) passamos por mais umas terras com o nome estranho. Perna da Fadagosa, Vale do Grou, Enventos, Zimbreira. Esta ultima, boa terra para a letra “z” quando se joga ao “stop”.
Como o nome diz, um pego é uma poça funda formada por uma queda de água. Deste caso é uma zona muito agradável com uma passagem obrigatória por dentro de água com o carro de modo a se ter acesso ao “parque de estacionamento”. Na parte de cima do pego, existem mesas de pic-nic, encaixadas entre o ribeiro e as enormes pedras que habitam o local. Por ser um vale fundo com algumas escarpas lá mais a cima, existem paredes naturais de escalada.
Venda Nova, Ladeira e na N351 uma ponte romana de cinco arcos, que dizem os entendidos muito raro em Portugal (foto).
São José de Matas e 3km depois a Barca da Amieira, estação de comboio no meio do nada (à beira do Tejo), e antiga passagem para a outra margem (sul), através de uma barca que ainda se encontra encalhada na rampa de acesso. Amieira é a terra mais próxima na margem sul.
Numa casa próxima vê-se andorinhas num lintel de uma janela, num equilíbrio precário, tentando fugir da chuva.
Belver e o seu castelo com outra visão sobre o Tejo (foto). Em dias com boa visibilidade, outro três castelos se vêem deste ponto. Hoje infelizmente o céu ameaça cair em cima. Lá ao fundo a Barragem de Belver, dá outro caudal ao Tejo nesta zona. Esta barragem, apresar de estar mais perto de uma terra chamada Ortiga, deve o seu nome aos engenheiros que supervisionavam as obras estarem alojados em Belver.
Na outra margem um caminho mesmo junto à água, liga a ponte que atravessa o rio à praia fluvial da Quinta do Alamal.
Depois do almoço demos uma volta de bicicleta à vila de Mação. Igreja Matriz, Capela do Calvário foram nomes que me ficaram na cabeça. Visita ao posto de turismo que funciona em parceria com uma florista (!), somos remetidos para a câmara para mais e melhores explicações sobre o que procurávamos. Parem no pequeníssimo jardim de Mação (foto). Uma passagem pela ponte romana de dois arcos (foto) recentemente arranjada e umas brincadeiras no parque radical (para skate) acabaram a volta.

Rumo finalmente aos meus planos no meio de uma chuva sempre a agoirar dias molhados. Agradeço a hospitalidade de quem me acolheu por terras de Mação, onde um dia voltarei, espero com melhor tempo.
Barragem de Idanha-a-Nova, parque de campismo. Por entre uma aberta montei tenda, tomei banho e fiz o jantar. Há noite fui para a sala de convívio lá do sitio onde encontrei mesa e cadeira, para me sentar a escrever o diário de viagem.

Fim do 3º Dia

segunda-feira, agosto 21, 2006

À beira do Tejo

O percurso até ao Crato, aquela hora da manhã tem o seu que de estranho. Já tinha tido a mesma sensação à um ano atrás. Parece que tudo ainda está a acordar, até eu. Estrada vazia, poucas curvas, condução fácil e suave. Passo por Santa Eulália onde existe uma antiga (?) colónia penal juvenil, sigo em direcção a Monforte. Antes de Monforte passou por um cruzamento típico de aparecer no “Portugal no seu Melhor” ou “Nós por Cá”. Já o começo, por isso antes de o ver, vou abrandando. Apesar de sinalizado, só se repara nele mesmo em cima, e ainda por cima é no final de uma recta. Mas podia ser pior.
Passo pelas Termas de Cabeço de Vide, que não conhecia a sua existência. Alter do Chão (por na agenda uma visita) e finalmente Crato.
Montei a bicicleta e lá vou eu. Não encontro posto de turismo. Fui até ao castelo meio perdido. Fiquei decepcionado com as obras que lhes estão a fazer. Passei pela câmara onde já tinha passado de carro. O largo dos paços do conselho é quase sempre o mais arranjado, com o típico pelourinho (foto). Vou-me embora.
A caminho de Nisa encontro uma placa que me chama a atenção. Caminho de Santiago (!) Aqui por estas bandas? Mas claro, era só esta placa.
Nisa e o seu Posto de Turismo cinco estrelas. Vim de lá cheio de papelada entre roteiros pela vila a percursos pedestres.
O percurso que está no guia começava na praça da Republica, amplo espaço recentemente arranjado, com jardins, lago com repuxo e jogos de água, coreto e lugares para estacionamento. No Largo António Granja estão as Portas da Vila (foto), que dão acesso à parte velha e mais escondida da vila, aquilo que procuro e realmente aprecio nos lugares por onde passo. Logo a seguir, a Igreja Matriz do séc. XVIII. Não me faço de convidado de um casamento a decorrer, e contínuo pela Rua Dr. Francisco Migueis em direcção aos Paços do Conselho com a sua fonte oitocentista, o pelourinho com esfera armilar de ferro e brasão e a Capela da Misericórdia aproveitada para expor arte sacra. Por baixo de um arco, cuja placa com o nome não me lembro de ter olhado, chego à Rua António Lobo da Silveira Alvito. Todas as quatro ruas do lado direito são o espelho da parte antiga da vila. Ruas estreitas, casas de dois pisos algumas com lintel de pedras nas portas e janelas (foto). Saio do castelo pelas Portas de Montalvão. O resto do percurso de volta à Praça de Republica é feito pelo meio da parte nova, parecida com qualquer parte nova de uma povoação. Resta falar da Fonte da Pipa, perto da entrada da vila, protegida por um pórticos que é suportada por duas colunas.
Continuo para norte em direcção a Vila Velha de Ródão, primeira vila portuguesa que o Tejo vê ao entrar em Portugal. O encontro com o rio depois de uma estrada entre montes, foi uma boa visão. O passar a ponte de ferro com pilares de pedra foi outra. Do lado esquerdo o rio passa entre dois montes escarpados (foto). Sou tentado por uma indicação de diz miradouro/igreja/castelo. Combinação perfeita. Subo por uma estrada estreita no meio dos pinheiros e depois de alguns quilómetros de alcatrão um pouco duvidoso estaciono ao carro ao pé de uma pequena capela impecavelmente pintada de branco. Ao cimo do monte uma torre. Mas perto uma placa diz que está a ser recuperado o castelo do Rei Wamba. Pelo nome deve ser um rei mouro. Não podia ter escolhido melhor sito por ser o monte mais alto à beira rio, de onde se podia ver uma grande extensão do rio, bem como a linha-férrea que pela margem o seguia (foto).
Cheguei a Mação e estacionei o carro perto da Igreja Matriz. O meu contacto em Mação mostrou-se surpreendo por já estar na vila, devia ter telefonado antes para ter tomado outra direcção na entrada. De telemóvel na mão esquerda e volante e manípulo das mudanças na direita lá fui contornando a Igreja Matriz, passando pelo MiniPreço, pela Câmara Municipal e logo a seguir virar à esquerda, na rotunda à direita e estacionar logo a seguir.
Depois de um olá sorridente, lá fomos nós dar uma voltinha. “Boas vistas? Igreja? Montanha? Rio?” perguntou. Respondo mais ou menos todas. Fomos em direcção ao parque de Merendas do Brejo. Avisou-me que a estrada se ia degradando progressivamente e não é que estava a dizer a verdade? De nacional passou a caminho secundário que passou a estrada para carro e meio até que passou a estrada de terra. “Mas onde é que vai meter a minha querida carrinha?”, penso. Explicou então que o Conselho de Mação tem sido fustigado por fogos nos últimos anos que reduziram a imensa mancha verde, constituído principalmente por pinheiros bravos, a meia dúzia de árvores perto das povoações. Por esse motivo, a câmara abriu estradões põe todo o lado para mais facilmente se ter acesso à zona do incêndio. Além disso estão todos bem sinalizados como se fosse uma estrada normal, com indicação para onde vai e a distância.
O Brejo é um local no meio da montanha, onde se aproveitou uma nascente e os vestígios de uma velha mina, para fazer uma fonte e um parque de merendas com bancos debaixo de árvores ainda jovens. É uma espécie de oásis no meio de uma encosta árida (foto), à espera que a vegetação volte a crescer.
Passagem pelo posto de vigia do Bando dos Santos, onde a vista justificou a construção de um miradouro num monte próximo. Em dias mais limpos, a Serra da Estrela fica logo ali. Sempre impressionante passagem pelo parque eólico a seguir.
São Gens não é mais do que uma capela no alto do monte, que sobreviveu aos incêndios, só com umas chamuscadelas. Diz a tradição que quem tiver falta de apetite, é só subir até lá e bater três vezes com a cabeça na porta que resolve o problema. Subir até lá acima de certeza que abre o apetite, mas convêm ir acompanhado, porque depois de três cabeçadas na porta de ferro da capela, é bom ter alguém nos apare.
Na Azenha do Cavalo, deixamos o carro fora da estrada e procuramos um pego que existe na Ribeira do Aziral. Caminhamos entre silvas e fetos, pinheiros queimados, com eu com um cacho de uvas docinhas, com muita pele e grainhas, enchemos a roupa com risco de carvão, e as típicas ervas, mas não encontramos nada. Valeu mesmo assim a pena.
Passamos por um espelho de água que tem bom aspecto para dar uns mergulhos. Foi criado por uma pequena barragem. Esta massa de água estende-se ainda por baixo de uma ponte, de onde os mais corajosos se atiram.
Outros nomes: Pereiro, Castelo, Vale da Mua, Envendos, Furtado, Vale de Coelho. Gosto de alguns destes nomes, pois parecem que foram “inventados” por alguém com o nariz entupido.
Fim do 2º Dia

domingo, agosto 20, 2006

Planícies

Chegou o dia da grande viagem pelo interior de Portugal. Tudo começou no ano passado com uma viagem parecida, feita em menos dias e sem paragens em parques de campismo.

A ideia é simples. Dormir em parques de campismo, visitar aldeias históricas, levar a bicicleta para reduzir o tempo gasto na visita mas terras maiores, fazer muitos quilómetros por estradas com pouco trânsito, sentir a velocidade naquelas estradas estreitas, apesar de ir só a 60-80 km. Sentir os lugares principalmente. Não gosto de ir, simplesmente para marcar o ponto.
Começo por visitar a minha avó, que nesta altura do ano está na sua terra natal, numa vila perto de Elvas. No dia seguinte começo a minha viagem para norte em direcção a um Portugal desconhecido, mas que aos poucos vai sendo descoberto.
Faço um desvio para visitar Évora, cidade património mundial. Apesar de há muito se ter expandido para fora das muralhas, esta cidade conseguiu manter um vasto centro histórico, que trai no Verão uma quantidade considerável de turistas.
Deixo o carro no Rossio de S. Brás, largo espaço aberto a sul da cidade. Monto a bicicleta e começo a percorrer as ruas em direcção ao centro.
Pela Travessa das Pêras chego à Rua Miguel Bombarda. Duas janelas com sacada decorada com esfera armilar. Logo a seguir o Largo da Misericórdia, a Igreja de S. Vicente, datada de 1467 com alguns vestígios de arquitectura gótica.

A Rua da República dá acesso à famosa praça do Giraldo (foto). Os arcos aqui existentes e bem característicos de uma certa parte da cidade, que se estendem pela praça do Giraldo e continuam pela Rua João de Deus, dão uma passagem segura aos peões e sombra a uma mesa ou outra de um café por ali instalado.
Na Praça do Giraldo, procuro o que procuro em todas as terras por onde passo: Posto de Turismo. Agora que já tenho uma mapa, já é mais fácil orientar-me, ou pelo menos saber o que são os sítios onde passo.
Praça do Giraldo, centro da cidade de Évora com o seu Paço dos Estaus de D. Duarte com os seus vestígios góticos, a famoso Fonte Henriquina e Igreja de Santo Antão decorado com arte renascentista. No tempo em que os meus avós vivem nesta cidade, a minha avó conta que o meu avô gostava de vir conversar para esta praça, onde criticava o antigo regime. Era obvio que ela ficava preocupada pois nesse tempo os opositores ou que falavam mal do regime era geralmente presos.
Subo a Rua 5 de Outubro pelo meio de muito de turistas, esplanadas e lojas de recordações. Vou espreitando todos os cantinhos, em busca de algo que me tente escapar.
Chego ao Largo Conde Vila Flor, mais conhecido por ter o templo de Diana (foto). Templo romano erguido sob uma necrópole de Évora. Data do séc. I d.C..
Contorno a Sé descendo por uma rua que me dá acesso ao Largo das Portas de Moura (foto). Existe uma fonte renascentista data de 1556 neste largo, onde o desgaste devido ao uso é visível nos blocos de mármore, com que foi construída.

Volto a subir em direcção a porta principal da Sé, continuando a contorná-la no sentido horário. Nas escadarias está uma senhora a pintar miniaturas de casas alentejanas. Mais acima, e aproveitando a sombra das árvores, charretes esperam clientes. Reparo que é fácil ver qual o percurso que fazem, pois o chão está marcado pelos cascos ferrados dos cavalos.Desço a Rua Vasco da Gama, Largo de S. Tiago, Praça do Sertório onde estão as termas romanas situadas no subsolo do edifício dos Paços do Concelho, datadas do séc. I d.C.
Sigo pela Rua Nova onde existe uma caixa de água para distribuição do cano real, data de 1536, planta rectangular, estilo renascentista com um depósito central rodeada por 12 colunas toscanas.
Continuo por essa rua, cruzo outra vez com a Rua 5 de Outubro, e continuo por uma travessa que não sei o nome, onde peço passagem a duas senhoras idosas que ai iam avançando com o seu passo desengonçado. Uma delas desvia-se e pede desculpa e eu retribuiu com um “não há problema”.
Volto à Praça do Giraldo mas desta vez saio pela Rua João de Deus, seguindo os arcos até ao Largo Luís de Camões, ou Porta Nova, onde se pode ver uma parte do aqueduto, Rua José Elias Garcia, que vai ter à Praça Joaquim António de Aguiar onde existe um moderno jardim e parque de estacionamento subterrâneo. O Theatro Garcia de Rezende (foto) compõe a praça.
Na Rua Cândido dos Reis encontro uma mercearia aberta e entro num espaço pequeníssimo que tinha um pouco de tudo e de nada. Uma cliente gordinha preenche uma boa parte do espaço e tempo negociar com ela algum espaço para escolher maçãs. Tudo é feito com muita calma. Não há pressas por estes lados, nunca houve, porque haveria esta gente de ter agora? Nós é que nascemos noutro tempo em que tudo é para ontem…

Próximo destino, Juromenha. Ouvi falar que tinha um castelo sobre o Rio Guadiana e tive de investigar. De povoação não tem nada de especial excepto o enorme forte (foto). Ponto alto naquela zona domina a planície espanhola do outro lado do rio. Apesar de Alqueva estar a muitos quilómetros de distância a sua influência é notada pelo caudal do rio.
Algumas estruturas nas duas margens ficaram submersas. Aproveitando esta água extra, algumas estufas e culturas de regadio. No interior do forte é uma ruína que impressão. Casa com brasão que parece estar ao abandono desde sempre. Existe várias igrejas em capelas, todas elas degradadas. A igreja principal (foto) tem um telhado novo, mas o grau de degradação é tão grande que até os pombos fazem dela sua casa. Esta aldeia é um bom exemplo do isolamento baseado na situação geográfica. Os acessos não são maus, mas as rotas turísticas entre Elvas e Évora são inexistentes.
Fim do 1º Dia

sábado, agosto 12, 2006

Mirones choramingas

A indignação por parte dos jornalistas nos últimos tempos, por ter sido vedada a recolha de imagens mais perto das zonas de incêndio, deixou-me pensativo e nada solidário.
Quem gosta de ver as florestas arder, de ver aquele “espectáculo”, aquelas populações aflitas a responder a perguntar parvas diante da câmara, tentando abrir os olhos a lacrimejar, enquanto arde tudo atrás delas…?
Os jornalistas beneficiam indirectamente com os incêndios.
Em Agosto, normalmente são se passa nada, não há noticias com grande impacto que preencham os telejornais por mais que uns minutos. Então e os incêndios? Ora ai está a tábua de salvação. Não nos deixam filmar? Liberdade de impressa! É sempre a desculpa.
Porque é que não voltam lá depois do incêndio (estou a falar de sítios onde só ardeu mata) para ver como ficou o local? Pois, já não se passa lá nada, já não interessa, né? Mas era bom que as pessoas vissem o resultado do “espectáculo”, para quando deixam o lixo depois dos picnics, deixarem as fogueiras acesas ou mm lançares foguetes de qualquer maneira, pensassem 2 vezes. Mas se calhar não vale mesmo a pena…
Temos de ter alguma coisa para nos queixarmos, não é verdade?

domingo, agosto 06, 2006


terça-feira, agosto 01, 2006